O consumo de conteúdo digital e sistemas de recomendação nas mídias sociais

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Painél do Pinterest (Photo credit: cambodia4kidsorg)

Todos os dias os usuários do Twitter postam mais de 500 milhões de tweets. Junto aos pins que os milhões usuários do Pinterest publicam, é uma quantidade enorme de conteúdo inserido diariamente na internet. Mas uma observação cautelosa mostra uma peculiaridade: mais de 80% do conteúdo diário do Pinterest são repins, republicações. Não admira que menos da metade dos usuários da internet, 45% deles, publicaram fotos feitas por eles mesmos e que apenas 18% publicaram vídeos que tenham feito. Estas estatísticas nos permitem dizer que o número de criadores de conteúdo na internet é menor que os de curadores, e ambos são menores que o número total de consumidores passivos, embora os primeiros estejam contidos neste último grupo. Assim, se a maior parte dos usuários da internet é composta de consumidores de conteúdo digital, facilitar a descoberta de conteúdo relevante seria uma forma adequada de manter o usuário visualizando o site por mais tempo.

Ciente disso, o Pinterest criou, em janeiro de 2013, a ferramenta “News”. Ela mostra ao usuário painéis onde seus pins foram recentemente repinados, criando uma exposição de conteúdo potencialmente relevante. Ao explorar o conteúdo destes painéis, o usuário poderia descobrir novos painéis para seguir, aumentando assim seu engajamento ao site.

O Twitter já havia criado uma ferramenta parecida em dezembro de 2011. A ferramenta “Descobrir” é uma aba que fica no topo da página inicial do usuário. Segundo o próprio Twitter, ela “torna mais fácil descobrir informações que lhe interessam sem precisar seguir contas adicionais“. Em maio de 2012, ela foi aperfeiçoada para mostrar tweets expandidos e conteúdo multimídia, baseados nas conexões, localização e linguagem do usuário. O grande trunfo é que a aba Descobrir e os tweets expandidos trazem para o fluxo de informações do Twitter tudo que ele não foi projetado para exibir: fotos, vídeos, conteúdos sobre localização e outros conteúdos de aplicações; conteúdos estes, que como já dissemos, geram mais engajamento do usuário com o site.

Este é um tipo de ferramenta que outras mídias sociais têm desenvolvido de forma semelhante. Há tempos os usuários do Facebook são assediados no site para “curtir” páginas terceiras e iniciar laços sociais com outros usuários. E no site de artistas gráficos deviantArt, em outubro de 2012, foi implementada a “More Like This”, em caráter de testes. A ferramenta funciona de forma parecida com a do Twitter, descobrindo através do conteúdo já publicado e das conexões feitas, novos conteúdos gráficos ou artistas similares. Portanto, esta breve análise sugere que é crescente o uso de ferramentas de recomendação de conteúdo.

Concluindo a seguir nossa análise, percebemos que estamos diante de duas grandes mídias sociais que tem bom potencial de crescimento a curto e médio prazo.

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O Espírito dos Tempos em Mil Palavras

Em abril de 2012 um fato mostrou uma transformação impressionante nas preferencias do público na internet. O Instagram, site de publicação de imagens com ferramentas de mídia social, com então apenas dois anos de existência, foi comprado naquele mês pelo Facebook por 1 bilhão de dólares. O jornal antológico grupo The New York Times, com mais de 100 anos de existência, valia, à época, cerca de 950 milhões de dólares. Compartilhar fotos pessoais valia mais do que a importância do jornal para a democracia. A cultura visual está se fortalecendo.

A guerra pelo mercado de fotos na internet tem feito com que as pontes entre as mídias sociais deixem de existir. Em dezembro de 2012 o Instagram bloqueou ao Twitter a opção de exibir nesta última foto publicadas na primeira, minando o tempo que os usuários empregam no site. Twitter respondeu adicionando filtros fotográficos ao seu aplicativo para celulares, emulando uma capacidade-chave do Instagram. Essa disputa tem seus motivos.

No Facebook, o maior site de mídia social do mundo, com 1 bilhão de usuários, são adicionadas, todos os dias, 300 milhões de fotos e imagens, o que representa 70% de toda a atividade no site. Em termos de engajamento, isso põe em vantagem aqueles que se comunicam baseados em imagens: o nível é 120% maior do que em relação ao conteúdo baseado em texto. Os usuários do Instagram enviam ao site 26 fotos por segundo. Até abril de 2012, mais de um bilhão de fotos foram submetidas. No Tumblr, uma rede de blogs, ferramenta que tem como base a palavra, 42% do conteúdo são fotos e imagens.

No Twitter, uma mídia social inicialmente projetada para ser operacionalizada através de mensagens de texto de celular, não existem dados sobre o percentual total de tweets que contém fotos, mas uma fatia analisada em 10 de julho de 2012 concluiu que, dos 750 mil links postados, 36% do conteúdo continha imagens. No Pinterest não é possível publicar conteúdo sem que haja uma imagem. Ou seja: 100% do conteúdo do Pinterest é baseado em imagens.

Ao mesmo tempo, a quantidade de caracteres presentes nas notícias tem diminuído. Não há dados para os jornais brasileiros, mas nos Estados Unidos, entre os principais veículos noticiosos há uma queda acentuada no número de matérias com mais de 2000 palavras. Em 2003, The Los Angeles Times publicou 1776 notícias nesta categoria. Em 2012, o número caiu para 256, uma queda de 86%. Nos mesmos anos, The Washington Post publicou 2755 notícias com mais de 200 palavras, contra 1378 em 2012; uma queda de aproximadamente 50%. The Wall Street Journal, pioneiro na publicação de longas narrativas na imprensa dos Estados Unidos, publicou 35% menos reportagens do tipo, de 721 para 468. Apenas The New York Times teve resultados moderados: nos anos analisados, o jornal publicou 25% menos reportagens com mais de 2000 palavras, mas publicou 32% mais peças com mais de 3000 palavras.

Em O Líder do Futuro, o especialista em previsão de tendências globais, John Naisbitt, fala da “morte lenta da cultura do jornal”. Naisbitt fala principalmente do jornal impresso, comentando sobre a decadência dos jornais de referencia.

Jornais antes publicados no tamanho grande, tradicional, estão mudando para o formato tabloide e, muitas vezes, veiculando matérias mais picantes, as que fazem a fama desse tipo de periódico. Enquanto isso, jornais gratuitos estão conquistando uma posição segura, e a internet vem atraindo leitores de todos os níveis e lugares.

Porém, Naisbitt reitera que as palavras-chave nessa questão são “lenta” e “cultura”.

O que estamos testemunhando é o vagaroso fim da cultura do jornal, que estava relacionada com a importância dessa mídia em nossa vida.(…) E, à medida que os jornais tornam-se menos importantes para nós, o que acontece com o empreendimento jornalístico passa a ser menos interessante também.

Assim, quanto menos tempo as pessoas empregam consumindo notícias na imprensa, menor é a relevância dos veículos noticiosos. Em termos de apelo visual, é difícil pensar em como a vertente mais visual da imprensa, o fotojornalismo, pode competir em pé de igualdade com outros produtos de apelo visual.

Naisbitt fala como

Os videogames, que conquistaram coletivamente boa parte do espaço e do tempo antes ocupado pela televisão, vêm atraindo a atenção como uma forma de arte. Os americanos, por exemplo, agora gastam mais dinheiro com esses produtos do que com filmes.

O grande sucesso dos videogames seria a capacidade do jogador ser imerso em uma narrativa, de maneira que não pode ser imitada por outras mídias, como jornal ou cinema. No artigo “The Gamer as Artiste”, Eric Zimmerman, designer e acadêmico da área de videogames diz que

Os videogames são, por natureza, incrivelmente envolventes em termos emocionais. Trata-se de sistemas dinâmicos participativos. Esse é um nível de narrativa que os filmes não alcançam.

Sendo um produto de desenvolvimento caro, já existem há tempos grandes empresas produzindo jogos complexos, associações e cursos especializados na área, a produção de videogames tornou-se uma área de conhecimento especializado, às vezes comparado à arte.

Existe uma mudança clara: o que antes era considerado uma espécie de entretenimento para jovens, virou o centro de uma indústria milionária. E a mudança sobre a apreciação visual do que antes era banal continua. Naisbitt mostra como produtos comuns do dia-a-dia estão cada vez mais desenhados em designs sofisticados, representando uma forte linguagem universal para os projetos de produtos.

Bem Evans, diretor do Festival de Design de Londres, no mesmo artigo, afirmou:

Quinze anos atrás, as empresas concorriam com base no preço. Hoje é a qualidade. Amanhã será o design.

Antes do surgimento do iPhone, fabricado pela Apple, a Nokia era a fabricante de celulares mais bem sucedida. Vários analistas atribuíam este sucesso à uma linguagem universal de design que seus produtos inspiravam. Com o ressurgimento da Apple, fabricando o iPod e o iPhone, a linguagem do design voltou a ser importante para produtos prosaicos, como um tocador de música portátil ou um rádio portátil dotado de capacidades de computadores.

Na época do lançamento do iPod, Dylan Jones, editor da revista GQ, elogiou a universalidade do aparelho, pois

não houve necessidade de adaptação regional nem de consideração das línguas locais.(…) Uma das coisas fáceis de esquecer sobre a brilhante criação de Steve Jobs é que ela é fundamentalmente internacional, e ele produziu uma máquina que é de fato panglobal.

O crescente desejo global de que tudo nos rodeia seja belo, acompanhado da mudança do foco de conteúdo dos consumidores (do texto para o pictórico), impõem novos desafios ao Twitter. Tendo seu foco no texto, o Twitter se viu obrigado a implementar soluções próprias para não se ver obsoleto.

Em 13 de junho de 2012, o Twitter apresentou a funcionalidade chamada “tweets expandidos”. Ao clicar em um Tweet que contenha algum link de um “site parceiro”, os usuários podem ver os leads de notícias, fotos, vídeos e etc. Embora ferramentas baseadas em texto puro e hiperlinks ainda existam (como o IRC), exibir conteúdo multimídia é uma ação chave para o futuro do Twitter, como veremos a seguir.

Já em 24 de janeiro de 2013, o Twitter lançou uma espécie de site parceiro, o Vime. Usando esta ferramenta, os usuários podem gravar pequenos vídeos com seis segundos de duração, que são repetidos indefinidamente.

As características atuais do Twitter e do Pinterest mostram que estes estão afinados com os comportamentos e interesses de seu publico. O que veremos a seguir.

Mídias Sociais: a vitória das pequenas conversas

As chamadas mídias sócias são ferramentas disponíveis na internet que permitem indivíduos iniciarem conversações, muitas vezes assíncronas, entre indivíduos em nível “todos para todos”, subvertendo a lógica tradicional das mídias de massa, de “um para todos”. Raquel Recuero cita as características deste tipo de mídia.

  • Emergência de Redes Sociais: As mídias sociais possibilitam a interação entre indivíduos, permitindo a formação de laços sociais em um ambiente onde essas conversações continuam a existir mesmo depois de os participantes se vão, permitindo que outros indivíduos possam encontra-las e possivelmente juntando-se à conversação, de maneira assíncrona, formando grupos que podem formar comunidades virtuais.
  • Emergência de Capital Social Mediado: Dentro das mídias sociais, os usuários podem gerar um tipo de capital social que pode ser percebido por indivíduos externos. Ao contrário do capital social comum, que é desenvolvido e melhor percebido através da interação com os componentes do grupo, o fato de que essas regras sociais ficam, em geral, registradas de maneira aberta, acessível a quem acessa a mídia social.
  • Conversação: os laços sociais nesse tipo de mídia se estabelecem através da conversação. Conversas entre indivíduos ou entre indivíduos e grupos podem gerar laços, que por sua vez podem levar a engajamentos para ação ou mudar opiniões. Novamente pela capacidade de registro e resgate de informações, as conversas podem ser assíncronas.
  • Diversidade de Fluxos de informações: A possibilidade de inclusão rápida em uma conversação facilita a exposição de pontos de vista e modos de diálogos diferentes. Assim, nas mídias sociais diferentes fluxos de informação (convergentes, divergentes ou neutras), em formas diferenciadas (fotos, texto, som, vídeo, etc.), convivem no mesmo espaço. Recuero diz que “A diversidade desses fluxos é uma característica desse tipo de mídia, consequência direta da Sociedade da Informação e das trocas sociais dos atores”.
  • Apropriação Criativa: No começo, o Twitter perguntava a seus usuários “O que você está fazendo?”. A pergunta quase nunca era respondida, com outros conteúdos tomando espaço, até que a pergunta foi substituída para “O que está acontecendo?”. Os usuários de sites de mídias sociais frequentemente subvertem sua utilidade inicial, adaptando-a a seus interesses particulares ou grupais, o que representa uma evolução nos valores e no modo como as pessoas se relacionam com as mídias em questão. Recuero afirma que “Uma mídia social que deixa de apresentar usos criativos está fadada.”

Então as chamadas mídias sociais tem esse nome, pois está em seu cerne a geração de capital social através da interação entre seus usuários. O resultado final é que muitas vezes essa capacidade de gerar algum tipo de sociabilidade é mal interpretada: as redes sociais e as mídias sociais são a mesma coisa? Onde termina uma e começa a outra? Jader Felix faz uma distinção magistral.

Para distinguir os conceitos, Jader define as redes sociais como o

(…) relacionamento de pessoas dentro de um grupo socialmente organizado. Em outras palavras, pessoas que se comunicam dentro de um grupo específico por afinidade de interesses. Chamamos de redes, pois esta foi uma forma figurativa adotada para definir um grupo de pessoas que estão ligadas de alguma forma.

Estas redes possuem as características citadas por Recuero, “trocando informações [diversidade de fluxos de informações], organizando grupos exclusivos e inclusivos, criando diferentes modos de se relacionarem [apropriação criativa]”.

Pra definir as mídias sociais, jader retoma o sentido original de “media”,

que está diretamente associada a “meio”. Ou seja: “meio social”. Se entendermos dessa forma, “Mídia Social” se torna, de certa forma, outro nome para definir “Rede Social”, sendo que com outra abordagem: ao invés de se tratar da ligação entre as pessoas, tratar-se-ia do ambiente onde elas estão se relacionando.

Assim a palavra “mídia” está mais relacionada a “meio de comunicação”, um veículo que os usuários utilizam como meio de comunicação. A diferença aparece

no momento em que atentamos para o fato de que em “Mídia Social”, as pessoas se comunicam, individualmente, mas não entre si, pois não geram uma “rede” de relacionamento.

Jader fala de situações onde não existem laços criados entre os usuários, onde estes apenas divulgam informações, mas não praticam conversações. O fato de o foco estar nas informações, e não nas pessoas, dá a este uso das mídias sociais uma semelhança às mídias de massa, um modelo um para todos. Mas essa semelhança logo é desfeita, pois atualmente todas as mídias sociais têm mecanismos de conversação entre os emissores e receptores, através de mensagem direta ou sistemas de comentários.

Assim, são as mídias sociais que permitem a criação de redes sociais virtuais na internet, através de ferramentas de mensagens diretas, fóruns, comunidades virtuais e etc. E os interesses destas redes sociais acabam por influenciar fatores externos a elas mesmas, ao mesmo tempo em que os influenciam. Veremos a seguir como os conteúdos no Pinterest e no Twitter influenciam o espirito dos tempos.

Pinterest e Twitter: guia de uso

Pinterest e Twitter têm enfoques diferentes para permitir a seus usuários gerar e consumir quantidades dosadas de conteúdo, além de interagir com os outros usuários destes sites. Explicamos a seguir seus modos de funcionamento, e adiante explicamos como ambos se encaixam dentro do conceito de mídia social. O entendimento do funcionamento e sua categorização em um campo de estudos já delimitado serão nossa base para entender as especificidades de cada um de nossos objetos de estudo.

Pinterest: cuidando dos interesses dos usuários.

O Pinterest pode ser entendido como um site de bookmarking social. Usando a metáfora de painéis, os usuários podem fixar pins (o verbo usado em português para ação de criar pins é pinnar) conteúdos relevantes espalhados pela Web a esses painéis, que tem como foco os interesses dos usuários, com títulos como “Favorite recipes”, “For the home” e “Products that I love” (“Receitas Favoritas, “Para a Casa” e “Produtos que amo”, respectivamente). Estes conteúdos só podem ser pinnados se na página original houver uma imagem, que pode ou não ser diretamente relacionada com o conteúdo exposto.

O resultado final é uma página em que há a imagem em destaque, a descrição feita pelo usuário sobre o conteúdo e logo abaixo um espaço para comentários. Ainda mais abaixo existem mais informações sobre o pin, tais como quem “curtiu” e quem replicou o conteúdo, através da ferramenta repin(a versão em português do site exibe a opção “Repinar”). Na lateral direita são exibidas as possibilidades de publicar o pin nos sites Facebook e Twitter, bem uma ferramenta para incorporar o pin a um site terceiro em que se possa editar diretamente o código HTML. É necessário clicar na imagem destacada para ser direcionado à página original do conteúdo.

O formato final do painel é uma coleção parcialmente linear de quadros contendo imagens e comentários sobre os conteúdos. Este modelo inovador de apresentação de conteúdo estimulou muitos grupos a imitá-lo. O grupo New York Times lançou o site Compendium, para que os pagantes do jornal possam montar narrativas usando conteúdo do site noticioso. O Pinstagram é uma maneira de reorganizar a apresentação das fotos publicadas no site Instagram. No Facebook, o aplicativo Freindsheet organiza o conteúdo criado pelos usuários em forma de um painel. E mesmo fora da internet, há quem seja influenciado pelo design do Pinterest. Um shopping center criou um painel físico similar simulando os do Pinterest e o vinculou a um painel on-line no site. Clientes podem participar de promoções para ganhar prêmios exibidos no painel físico.

Se a metáfora do Pinterest é o painel, a nós parece que ela também se aproxima de uma metáfora de scrapbooking. Scrapbooks são cadernos decorados, onde os donos colecionam fotos familiares e de amigos, além de pequenos objetos relevantes, como folhas de árvores de estações significativas, souvenires recebidos como presentes e outras pequenezas sentimentalmente significativas.

Afirmamos que há paralelos entre o Pinterest e a atividade de scrapbooking, pois, tanto no site quanto nos cadernos decorados, o foco é no passado: o Pinterest é um depositório de conteúdos relevantes para seus interesses, que podem ser facilmente recuperados, já que estes conteúdos estão divididos nos quadros temáticos; e os scrapbooks guardam boas recordações da vida pessoal de quem os possui.

Ambos têm uma função de cuidar do passado, fazer uma curadoria do que aconteceu, na internet e na intimidade. Falaremos em outro momento adiante sobre o conceito de curadoria e como ela se aplica ao Pinterest.

Twitter: termômetro do agora.

O Twitter é um serviço de micloblogging criado em 2006, inicialmente difundido entre entusiastas da tecnologia da informação, que posteriormente ganhou a adesão de celebridades, que publicavam detalhes inacessíveis de seu dia-a-dia; assim a ferramenta ganhou atenção da mídia de massa e consequentemente de segmentos mais gerais da sociedade.

O site não tem uma função específica como rede social. Ao contrário de outras redes onde o foco é na relação com indivíduos, como Orkut ou Facebook, o Twitter tem a peculiaridade de servir mais como mídia social: o foco não se encontra nas pessoas em si, mas nas informações que elas publicam em seus perfis, as ideias, noticias ou construções que constroem as identidades de cada perfil.

O idealizador, Jack Dorsey, inspirou-se nos taxistas, que podiam dar sua localização às bases através de rádio. Se os taxistas podiam dizer onde estavam e o que estavam fazendo, por que qualquer um não poderia fazê-lo? Dorsey convenceu Evan Williams, criador do Blogger, atual plataforma de blogs do Google, a apostar em sua ideia. Quando o site foi lançado, instigava as pessoas a responder “o quê você está fazendo?”. Porém só uma pequena parte dos usuários respondia a esta pergunta apropriadamente. No estudo “Twitter: Expressions of the Whole Self, an investigation in touser appropriation of a web-based communications platform”, Edward Mischaud mostrou que apenas 35% dos usuários o faziam, sendo que o restante foi classificado da seguinte maneira:

“ ‘Pessoal’ (pensamentos e detalhes sobre a vida do usuário); ‘Família/Amigos’ (mensagens direcionadas a uma pessoa específica; sentimentos ou pontos de vista sobre outra pessoa); ‘Informação’ (informação e notícias); ‘Trabalho’ (referências ao local de trabalho, colegas, ou tarefas diárias); ‘Conversa pequena’ (compressão dos sub-temas ‘Comida’, ‘Cultura Popular’, e ‘Tempo’); ‘Tecnologia’; e ‘Atividade’ (eventos que acontecem ou tarefas completadas) e ‘Miscelânea’, formado por postagens inclassificáveis”.

Assim, a maior parte do conteúdo do Twitter remete a assuntos radicalmente contemporâneos, com vida útil bastante curta para discussões. Tentado ser uma espécie de termômetro para o agora, atualmente o Twitter expõe para o usuário a pergunta “o quê está acontecendo?”. O foco no urgente, nos assuntos que estão em discussão acalorada neste momento, o Twitter se torna “Uma verdadeira ágora digital global: universidade, clube de entretenimento, ‘termômetro’ social e político, instrumento de resistência civil, palco cultural, arena de conversações contínuas”, nas palavras de Lucia Santaella e Renata Lemos.

Esta dinâmica se dá através da seleção de canais de informação para o recebimento de informações, “seguindo” os perfis com que divulgam informações que mais aprazem os usuários. O fluxo de informação recebido é de inteira responsabilidade do usuário, escolhendo quem irá fazer parte do seu “cardápio informacional”, criando um canal de recebimento de informações que é único e personalizado. O atual lema do Twitter, “Follow your interests”, mostra a intenção do site em ser um “lugar” onde seus usuários podem ficar interconectados e informados sobre os assuntos que lhes são relevantes.

As ações ocorrem sobre uma estrutura que possibilita a transmissão de informações de maneira fácil e simplificada. O usuário pode “tweetar” um texto puro de até 140 caracteres, um texto junto com um hiperlink (que atualmente é reduzido pelo próprio Twitter, e ocupa cerca de 20 caracteres) ou um texto acompanhado de uma foto (que agora pode ser enviada sem auxílio de sites terceiros, tais como Instagram  ou yfrog ). Ainda é possível anexar ao texto a informação sobre o local de onde está sendo enviado o texto, através de geolocalização.

A interação entre as contas do Twitter é feita através das ferramentas reply, direct message e retweet. O reply é uma espécie de resposta pública, aberta a toda a todos os usuários da internet, mecanismos de busca e interessados. O direct message é uma mensagem privada que só pode ser efetuada entre usuários que seguem um ao outro. O retweet é a ferramenta que permite a retransmissão de informações. Ao clicar no botão de “retweetar”, todos os seguidores da conta receberão a mensagem. Quem recebe a mensagem “retweetada” pode fazer retweet novamente, amplificando o recebimento da mensagem. Sobre a função, Alex Primo argumenta que “um simples retweet pode não apenas ampliar o alcance de uma informação, mas também criar novas conexões, motivar debates a partir de uma perspectiva diferente, e até mesmo gerar uma ação coletiva em rede”.

Saber como o Twitter e o Pinterest funcionam torna mais fácil ver como eles se encaixam na área de estudos das mídias sociais, para em seguida ver como estes dois agentes se encaixam em outras tendências maiores que influenciam tanto dentro como fora da internet. Veremos a seguir.