O Espírito dos Tempos em Mil Palavras


Em abril de 2012 um fato mostrou uma transformação impressionante nas preferencias do público na internet. O Instagram, site de publicação de imagens com ferramentas de mídia social, com então apenas dois anos de existência, foi comprado naquele mês pelo Facebook por 1 bilhão de dólares. O jornal antológico grupo The New York Times, com mais de 100 anos de existência, valia, à época, cerca de 950 milhões de dólares. Compartilhar fotos pessoais valia mais do que a importância do jornal para a democracia. A cultura visual está se fortalecendo.

A guerra pelo mercado de fotos na internet tem feito com que as pontes entre as mídias sociais deixem de existir. Em dezembro de 2012 o Instagram bloqueou ao Twitter a opção de exibir nesta última foto publicadas na primeira, minando o tempo que os usuários empregam no site. Twitter respondeu adicionando filtros fotográficos ao seu aplicativo para celulares, emulando uma capacidade-chave do Instagram. Essa disputa tem seus motivos.

No Facebook, o maior site de mídia social do mundo, com 1 bilhão de usuários, são adicionadas, todos os dias, 300 milhões de fotos e imagens, o que representa 70% de toda a atividade no site. Em termos de engajamento, isso põe em vantagem aqueles que se comunicam baseados em imagens: o nível é 120% maior do que em relação ao conteúdo baseado em texto. Os usuários do Instagram enviam ao site 26 fotos por segundo. Até abril de 2012, mais de um bilhão de fotos foram submetidas. No Tumblr, uma rede de blogs, ferramenta que tem como base a palavra, 42% do conteúdo são fotos e imagens.

No Twitter, uma mídia social inicialmente projetada para ser operacionalizada através de mensagens de texto de celular, não existem dados sobre o percentual total de tweets que contém fotos, mas uma fatia analisada em 10 de julho de 2012 concluiu que, dos 750 mil links postados, 36% do conteúdo continha imagens. No Pinterest não é possível publicar conteúdo sem que haja uma imagem. Ou seja: 100% do conteúdo do Pinterest é baseado em imagens.

Ao mesmo tempo, a quantidade de caracteres presentes nas notícias tem diminuído. Não há dados para os jornais brasileiros, mas nos Estados Unidos, entre os principais veículos noticiosos há uma queda acentuada no número de matérias com mais de 2000 palavras. Em 2003, The Los Angeles Times publicou 1776 notícias nesta categoria. Em 2012, o número caiu para 256, uma queda de 86%. Nos mesmos anos, The Washington Post publicou 2755 notícias com mais de 200 palavras, contra 1378 em 2012; uma queda de aproximadamente 50%. The Wall Street Journal, pioneiro na publicação de longas narrativas na imprensa dos Estados Unidos, publicou 35% menos reportagens do tipo, de 721 para 468. Apenas The New York Times teve resultados moderados: nos anos analisados, o jornal publicou 25% menos reportagens com mais de 2000 palavras, mas publicou 32% mais peças com mais de 3000 palavras.

Em O Líder do Futuro, o especialista em previsão de tendências globais, John Naisbitt, fala da “morte lenta da cultura do jornal”. Naisbitt fala principalmente do jornal impresso, comentando sobre a decadência dos jornais de referencia.

Jornais antes publicados no tamanho grande, tradicional, estão mudando para o formato tabloide e, muitas vezes, veiculando matérias mais picantes, as que fazem a fama desse tipo de periódico. Enquanto isso, jornais gratuitos estão conquistando uma posição segura, e a internet vem atraindo leitores de todos os níveis e lugares.

Porém, Naisbitt reitera que as palavras-chave nessa questão são “lenta” e “cultura”.

O que estamos testemunhando é o vagaroso fim da cultura do jornal, que estava relacionada com a importância dessa mídia em nossa vida.(…) E, à medida que os jornais tornam-se menos importantes para nós, o que acontece com o empreendimento jornalístico passa a ser menos interessante também.

Assim, quanto menos tempo as pessoas empregam consumindo notícias na imprensa, menor é a relevância dos veículos noticiosos. Em termos de apelo visual, é difícil pensar em como a vertente mais visual da imprensa, o fotojornalismo, pode competir em pé de igualdade com outros produtos de apelo visual.

Naisbitt fala como

Os videogames, que conquistaram coletivamente boa parte do espaço e do tempo antes ocupado pela televisão, vêm atraindo a atenção como uma forma de arte. Os americanos, por exemplo, agora gastam mais dinheiro com esses produtos do que com filmes.

O grande sucesso dos videogames seria a capacidade do jogador ser imerso em uma narrativa, de maneira que não pode ser imitada por outras mídias, como jornal ou cinema. No artigo “The Gamer as Artiste”, Eric Zimmerman, designer e acadêmico da área de videogames diz que

Os videogames são, por natureza, incrivelmente envolventes em termos emocionais. Trata-se de sistemas dinâmicos participativos. Esse é um nível de narrativa que os filmes não alcançam.

Sendo um produto de desenvolvimento caro, já existem há tempos grandes empresas produzindo jogos complexos, associações e cursos especializados na área, a produção de videogames tornou-se uma área de conhecimento especializado, às vezes comparado à arte.

Existe uma mudança clara: o que antes era considerado uma espécie de entretenimento para jovens, virou o centro de uma indústria milionária. E a mudança sobre a apreciação visual do que antes era banal continua. Naisbitt mostra como produtos comuns do dia-a-dia estão cada vez mais desenhados em designs sofisticados, representando uma forte linguagem universal para os projetos de produtos.

Bem Evans, diretor do Festival de Design de Londres, no mesmo artigo, afirmou:

Quinze anos atrás, as empresas concorriam com base no preço. Hoje é a qualidade. Amanhã será o design.

Antes do surgimento do iPhone, fabricado pela Apple, a Nokia era a fabricante de celulares mais bem sucedida. Vários analistas atribuíam este sucesso à uma linguagem universal de design que seus produtos inspiravam. Com o ressurgimento da Apple, fabricando o iPod e o iPhone, a linguagem do design voltou a ser importante para produtos prosaicos, como um tocador de música portátil ou um rádio portátil dotado de capacidades de computadores.

Na época do lançamento do iPod, Dylan Jones, editor da revista GQ, elogiou a universalidade do aparelho, pois

não houve necessidade de adaptação regional nem de consideração das línguas locais.(…) Uma das coisas fáceis de esquecer sobre a brilhante criação de Steve Jobs é que ela é fundamentalmente internacional, e ele produziu uma máquina que é de fato panglobal.

O crescente desejo global de que tudo nos rodeia seja belo, acompanhado da mudança do foco de conteúdo dos consumidores (do texto para o pictórico), impõem novos desafios ao Twitter. Tendo seu foco no texto, o Twitter se viu obrigado a implementar soluções próprias para não se ver obsoleto.

Em 13 de junho de 2012, o Twitter apresentou a funcionalidade chamada “tweets expandidos”. Ao clicar em um Tweet que contenha algum link de um “site parceiro”, os usuários podem ver os leads de notícias, fotos, vídeos e etc. Embora ferramentas baseadas em texto puro e hiperlinks ainda existam (como o IRC), exibir conteúdo multimídia é uma ação chave para o futuro do Twitter, como veremos a seguir.

Já em 24 de janeiro de 2013, o Twitter lançou uma espécie de site parceiro, o Vime. Usando esta ferramenta, os usuários podem gravar pequenos vídeos com seis segundos de duração, que são repetidos indefinidamente.

As características atuais do Twitter e do Pinterest mostram que estes estão afinados com os comportamentos e interesses de seu publico. O que veremos a seguir.

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