Arte e Ciência do Charlatanismo

Há alguns dias vinha pensando em escrever um texto sobre o charlatanismo de maneira geral, mas deixei em suspenso, pois não recordava de nenhuma fonte sobre o assunto. Então eis que um amigo me lembra de que o livro As 48 Leis do Poder, do infame Robert Greene, tem capítulo especial sobre isso: “Lei 27: Jogue Com a Necessidade Que As Pessoas Têm de Acreditar em Algo”.

O charlatão adquire o seu grande poder abrindo simplesmente uma possibilidade para os homens acreditarem naquilo em que já acreditam… Os crédulos não conseguem se manter distante, eles se aglomeram em torno do milagreiro, entram na sua aura pessoal, entregam-se à ilusão solenemente como gado. – Grete de Francesco

E eis que o grande Carlos Orsi publicou o texto Decálogo do curandeiro carismático bem-sucedido. Então, pra aproveitar todo o conhecimento gerado pelos dois autores, resolvi fazer um mashup dos dois textos.

Em minha opinião, a quantidade de charlatões vem crescendo bastante ultimamente e gostaria de dar uma contribuição a quem estiver interessado em desconstruir esses parasitas sociais.

A Ciência do Charlatanismo ou Como Criar um Culto em Cinco Etapas

Rera-Stock

Elixires e misturas milagrosas que não foram devidamente testadas, rituais de conversação com os mortos, previsões mundanas baseadas no movimento dos astros, curas através da luz da Lua, toalhinhas milagrosas, etc. O número de charlatanices parece apenas crescer numa sociedade conectada e saturada de informações, mas com pouco senso crítico.

O charlatão aproveita-se muitas vezes de pessoas emocionalmente ou psicologicamente enfraquecidas, ou ainda de pessoas muito gananciosas ou crédulas, para montar um espetáculo circense onde ele ganha poder sobre as outras pessoas, seus gestos ensaiados parecem grandiosos, seu discurso ensaiado e quase sempre “marketológicamente” preparado toca em nossas necessidades mais profundas. E muitas vezes eles levam nosso dinheiro e mais.

A maioria dessas figuras só quer dinheiro das pessoas. Essa é a boa notícia. Mas o que me preocupa é que vai surgir um Carlos [embuste criado por James Randi] vendendo um peixe bem maior – atraente, dominador, patriótico, transpirando liderança. Todos nós ansiamos por um líder competente, incorruptível, carismático. Não deixaremos de nos agarrar à oportunidade de nos fortalecermos, de acreditarmos, de nos sentirmos bem. A maioria dos repórteres, editores e produtores – arrebatados como nós – se esquivará de um verdadeiro exame cético. Ele não vai vender cristais, orações ou lágrimas. Venderá talvez uma guerra, um bode expiatório ou um amontoado muito mais abrangente de crenças que o de Carlos. Seja o que for, esse fenômeno será acompanhado de alertas sobre os perigos do ceticismo. – Carl Sagan; O Mundo Assombrado Pelos Demônios.

Para tanto, criar um grupo de seguidores ou devotos é ótimo para qualquer charlatão: qualquer um deles poderá servir como testa-de-ferro em alguma emergência; os trabalhos grupais ficarão mais fáceis, pois não será preciso convencer e muito menos argumentar com as pessoas; e dará um aspecto divino ao charlatão, como diz Greene:

“Este tipo de poder o elevará a uma nova esfera: você não terá mais de se esforçar, ou usar de subterfúgios, para impor sua vontade. Você é adorado e não erra.” (Greene; pg. 245)

O público seguidor já se encontra pré-disposto a participar do jogo, os seres humanos tem uma necessidade inerente de acreditar em algo, qualquer coisa. Assim basta que o charlatão acene com algo que suprisse nossas necessidades ou desse um novo brilho à nossa vida chata, “uma nova causa, um novo elixir, um esquema para enriquecer rápido, ou a última tendência tecnológica ou movimento artístico para que saltamos logo para morder a isca” (Greene; pg 245).

As pessoas que vão a uma cerimônia religiosa, em geral, já estão predispostas a aceitar docemente tudo que a figura de autoridade — padre, pastor, bispo, apóstolo, etc. — disser, mas não custa reforçar isso. – Carlos Orsi; Decálogo do curandeiro carismático bem-sucedido.

Como reforçar esse sentimento de união em torno de uma crença? Greene dá o primeiro passo.

Seja vago, seja simples.

A promessa de algo grandioso e transformador, mas ao mesmo tempo indefinido, irá chamar a atenção das pessoas; elas farão em suas mentes as conexões necessárias, vendo o quê quiserem nas palavras do charlatão. Greene diz que nada deve ser muito claro, “mas com palavras, que são obscuras e enganadoras” (p. 246). Títulos grandiosos para coisas simples e o uso de palavras calorosas reforçam a união em torno de algo que valha a pena, tornando a experiência mais profunda.

Mas nada deve ser muito complexo. Como diz Greene, a maioria dos problemas das pessoas é complexa, mas elas não estão dispostas a analisar profundamente as causas dos seus problemas (p. 246). A capacidade do charlatão de oferecer uma solução simples ou ainda externa é vital para a sobrevivência do séquito recém-criado.

Enfatize os Elementos Visuais e Sensoriais, de Preferencia aos Intelectuais.

O grande culto de cura e libertação, ou como quer que prefira chamá-lo, deve ser um espetáculo catártico, onde a adrenalina e as endorfinas jorram copiosamente, aos borbotões. Isso não só garantirá o alívio momentâneo de uma infinidade de sintomas — úlceras que de repente pararão de incomodar, pessoas fracas demais para parar em pé subitamente levantando-se, depressões temporariamente debeladas — como ainda tornará mais eficaz o embotamento do senso crítico trazido pelo Primeiro Mandamento [Reduzirás teu público a vaquinhas de presépio]. – Carlos Orsi; Decálogo do curandeiro carismático bem-sucedido.

Com o tempo as pessoas irão ficar entediadas com as armações do charlatão, elas passarão a ter tempo para pensar no que lhes é apresentado; pessoas céticas criticarão o culto e os seguidores podem ficar “infectados” por esse ceticismo.  Greene diz que o teatro é a melhor opção pra esse problema.

Cerque-se de luxo, atordoe seus seguidores com o esplendor visual, encha os olhos deles com espetáculos. Você não só impedirá que eles vejam que suas ideias são absurdas, que o seu sistema de crença é falho, como chamará mais atenção e atrairá mais seguidores. (Greene, p. 247).

Orsi diz que

Além de ser um espetáculo catártico (vide Mandamento anterior [Criarás uma grande comoção]), o grande culto é também um grande teatro de improviso, que tem no oficiante seu foco, seu diretor. Assim como o fã, num show de rock, rapidamente intui, a partir do que ocorre no palco, o papel que se espera dele — pular, dançar, gritar histericamente, erguer o isqueiro aceso, cantar junto –, o participante do culto também capta as deixas vindas do tablado e age de acordo, seja falando em línguas, gritando “aleluia!” ou rolando pelo chão como um endemoninhado. – Carlos Orsi; Decálogo do curandeiro carismático bem-sucedido.

Dar significados especiais a acontecimentos banais, saturar os sentidos com luzes, músicas, incensos, e até mesmo exibindo conceitos pseudocientíficos, tudo isso vai distrair a atenção dos seguidores do charlatão e impedi-los de pensar em quaisquer falhas que possam ocorrer.

Copie as Formas da Religião Organizada para Estruturar o Grupo

Agora é hora de o charlatão criar uma cultura própria para seu grupo. E as religiões organizadas têm boas referencias, já que exercem bastante autoridade sobre seus fiéis, mesmo numa era que chamamos de secular.

Crie rituais para seus seguidores; organize-os hierarquicamente, nivelando-os em graus de santidade, e dando-lhes nomes com matizes religiosos; peça-lhes sacrifícios que encherão seu cofre e aumentarão seu poder. Para enfatizar a natureza semirreligiosa de seu grupo, fale e aja como um profeta. (Greene. Pg.247)

O charlatão também deve estar atento aos aspectos simbólicos do seu grupo. Toda religião tem seus símbolos e ritos especiais, coisas que todos os participantes do grupo reconhecem, mas são estranhos a quem está do lado de fora. Assim, dar um aspecto sagrado a coisas banais (toalhinhas, água, azeite, vestimentas, rituais de passagem, etc.) é algo fundamental ao charlatão que aspira criar um séquito de devotos em torno do sobrenatural.

Disfarce sua fonte de renda

O seu grupo cresceu, e você o estruturou como uma igreja. Seus cofres estão começando a se encher com o dinheiro dos sues fiéis. Mas você não deve parecer muito ávido de dinheiro e do poder que ele trás. É neste momento que você precisa disfarçar sua fonte de renda. (Greene; pg. 247)

Mostrar aos seguidores seu sucesso financeiro pessoal é uma ótima maneira de assegurar que eles um dia estarão no mesmo patamar que você. Cerque-se de luxo, mas esconda que sua prosperidade vem do bolso deles; faça parecer que vem dos métodos que você explanou. Seus seguidores o imitarão cegamente, e não perceberão que sua riqueza é fruto da falta de senso crítico deles.

De maneira inversa, mostrar-se um exemplo de simplicidade e desprendimento de bens materiais também funciona: o charlatão incita os seguidores a entregarem os bens a seus cuidados, usufruindo deles longe dos olhos dos fiéis, durante seus “retiros”.

Estabeleça uma dinâmica Nós-versus-Eles

Depois de um tempo os seguidores podem acabar se cansando da dinâmica estabelecida, fazendo a coesão do grupo se enfraquecer. Para impedir que isso aconteça, o charlatão imita as religiões e sistemas de crenças: cria inimigos para seus seguidores combaterem.

Primeiro certifique-se de que seus seguidores acreditam que participam de um clube exclusivo, unidos por uma mistura de objetivos comuns a todos. Depois de reforçar esta união, crie a ideia de um inimigo traiçoeiro disposto a acabar com vocês. Existe um exército de infiéis que farão de tudo para deter você. Qualquer forasteiro que tentar revelar a natureza charlatã do seu sistema de crença pode agora ser descrito como um membro desta força traiçoeira. (Greene; pg. 248)

Talvez os objetivos do culto possam parecer abstratos ou complexos demais para os seguidores. Ideias muitas vezes podem ser difíceis de interpretar e dissonâncias podem levar o grupo a se fragmentar. Então eleger um inimigo é uma ótima maneira de tornar tudo mais real: as pessoas estão ali na frente de seus seguidores, suas palavras podem ser lidas e ouvidas; ao invés de odiar e brutalizar palavras e conceitos, tudo isso pode ser feito em pessoas de carne e osso. Ali e agora mesmo.

***

Exemplos destas práticas no mundo real abundam. Charlatões atacam uns aos outros, mostrando estas práticas que acabamos de descrever, enquanto defendem estas mesmas práticas debaixo de suas asas como verdadeiras, porém.

Portanto não faltam oportunidades para o pensador crítico examinar e desconstruir as enganações que causam tanto prejuízo financeiro e emocional aos iludidos.

Anúncios

The Corporation e a comunicação organizacional

The Corporation é um documentário canadense de 2003 escrito por Joel Bakan, baseado em seu livro “The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power”. O filme analisa os hábitos corporativos e faz uma análise psicológica do que entendemos como uma corporação, que resulta em um quadro de “distúrbio de personalidade antissocial”, psicopatia. Para nosso propósito, vamos analisar como a comunicação organizacional é tratada no documentário e como as corporações a utilizam.

(…)a comunicação organizacional no filme é vista como manipuladora dos fatos em benefício do lucro e do poder político das corporações(…)

A comunicação organizacional trata das relações comunicacionais entre pessoas jurídicas diversas (entidades governamentais, empresas de capital aberto, organizações não governamentais, etc.) e o público, composto tanto por outras pessoas jurídicas como por pessoas físicas (cidadãos comuns). O documentário é crítico sobre as corporações. Ele examina a corporação moderna quanto a seu status de pessoa jurídica, examinando suas ações e seus efeitos, tanto no mundo físico como na esfera pública, este último tópico mais especificamente na parte “Perception Mangement” (“gestão da percepção”).

Aqui entendemos que a comunicação nas organizações pode atuar de duas maneiras.

  • Através da criação de personas, vendendo e formatando percepções sobre as pessoas e o mundo que as cerca. A propagação constante de conceitos acerca de tribos da sociedade ou o uso de figuras com autoridade [legítima (um especialista na área) ou ilegítima (uma celebridade do entretenimento)] para validar ideias duvidosas que sejam favoráveis à continuidade ou aumento do lucro.
  • A comunicação organizacional também auxilia as corporações a comunicarem seus pontos de vista sobre situações correntes (na prática, esse ponto de vista corresponde ao de seus acionistas) e a ter uma “voz” que pode influenciar opiniões e legislações públicas. Interessante notar como a organização também cria uma persona para si, utilizando de figurações para ganhar um “rosto” e “personalidade”, como um ser humano real.

A prática é danosa porque a corporação, um sistema incrivelmente complexo e com órgãos especializados, tem um poder de persuasão e convencimento que acovarda opiniões contrárias. Os receptores da mensagem geralmente recebem uma versão parcial dos fatos e, como estão geralmente isolados de fontes comunicadoras de opinião contrária, assumem a versão corporativa como verdadeira.

Por isso a comunicação organizacional no filme é vista como manipuladora dos fatos em benefício do lucro e do poder político das corporações. Todos os exemplos mostrados no documentário são negativos.

Pode-se especular que esta tenha sido a intenção explícita dos realizadores do documentário, visto que no mesmo são mostrados exemplos de como as corporações trabalham suas imagens de modo a parecerem boas e desejáveis para o progresso humano.  Assim, a exposição panfletária das manipulações comunicacionais das corporações, ao invés de uma análise mais equilibrada e talvez imparcial, seria uma espécie de contrapartida, afinal a melhor maneira de equilibrar um balanço é sentando na outra ponta, não no meio.

Por isso entendo o filme como uma versão parcial necessária dos fatos, por isso não lhe faço críticas severas. A intenção do filme foi balancear o entendimento das corporações junto ao público, expondo o que existe por trás de toda aquela máscara de perfeição. As corporações criaram uma espécie de circulo vicioso onde o crescimento do lucro não pode parar, onde cada vez mais sacrifícios são necessários para aumentar as margens de lucro, sejam quais forem: humanos, ambientais, éticos ou morais. Esses sacrifícios geram outros problemas em outras esferas, onde surgem outras corporações para resolver tais problemas (com bastante lucro, obviamente), que por sua vez tem que fazer outros sacrifícios, reiniciando o ciclo.

Assim sendo, o documentário cumpre seu papel de mostrar informações contrárias às veiculadas na grande mídia, fornecendo ao cidadão informações úteis para refinar discernimento sobre a estrutura da sociedade atual.

Sociedade de Consumo

O texto a seguir foi baseado em notas feitas sobre o livro Sociedade de Consumo, de Lívia Barbosa.

Para Baudrillard, shopping centers são a quintessencia da sociedade de consumo. (sxc.hu;Paul Lloyd)

A eficácia dos métodos tayloristas e fordistas de produção liberou os agentes de produção de horas de trabalho inúteis. Então, para que o sistema não ficasse ocioso, foi necessário, através do marketing e da publicidade, educar as pessoas a serem consumidores vorazes. A cultura do consumo foi catalisada pela necessidade de produção em massa da revolução industrial.

Para alguns acadêmicos, notadamente Baudrillard e Bauman, o termo cultura de consumo traz consigo uma série de atributos negativos como perda de autenticidade nas relações sociais, materialismo e superficialidade, entre outros. O termo também inclui a relação intima e quase causal entre consumo, estilo de vida, reprodução social e identidade, a estetização e comoditização da realidade, além de estabelecer o signo como mercadoria. A predominância do significado cultural como mercadoria tem papel crucial na reprodução do capitalismo contemporâneo.

“(…)o consumo extrapolou sua função de satisfação das necessidades e de reprodução social(..)”

Para Baudrillard, a sociedade de consumo é aquela em que o signo é a mercadoria. Por isto ele quer enfatizar o descolamento definitivo do valor de uso do valor de troca da mercadoria e sua associação exclusiva com o valor simbólico.

Para Bauman, a característica distintiva da sociedade de consumo não é o alto nível de consumo em si, mas a desvinculação deste de qualquer função pragmática ou instrumental. O prazer que os produtos proporcionam lhes confere legitimidade. Assim, “na sociedade do consumidor, o consumo é seu próprio fim e por conseguinte seu autopropulsor”.

Essa busca por prazer no consumo e na satisfação dos desejos pessoais acaba por gerar um grau de individualização crescente na sociedade, o que leva a “subjetivação e individualização dos riscos e contradições produzidos por instituições e pela sociedade. Em resumo, os individuos estão condenados a buscar soluções individuais para contradições sistêmicas. Uma tarefa impossível…, algo que desafia a lógica e não pode ser levado a cabo de uma maneira que lembre remotamente uma solução coerente e sistemática”.

Assim, o termo Sociedade de Consumo refere-se a um tipo de sociedade onde o consumo assumiu aspecto central nas relações pessoais, especialmente o consumo do signo, um valor estendido incutido pelos marketeiros e publicitários, e percebido pelos consumidores. Dizer que vivemos em uma sociedade de consumo significa que o consumo extrapolou sua função de satisfação das necessidades e de reprodução social, tornando-se um referencial que pode ser usado para discutir outros aspectos da realidade social.